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Tradições
  • A tecelagem, o linho e a pintura dos tecidos no Arneiro

    Segundo algumas confidências da Sra. Maria Mena e por conversas com seus pais, Maria José Pequeno e Joaquim Duarte Mena Calado, as camisolas grosseiras de pura la faziam-se no Arneiro das Milhariças era um artesanato típico das nossas aldeias, pois nestes tempos, as técnicas de hoje não existiam. Para que as camisolas tivessem outra cor, estas eram tingidas com uma tinta a base do musgo da oliveira, ficando a camisola desta cor.

  • A plantação do linho

    Segundo as recolhas efetuadas nesta freguesia, o linho semeou-se muito no Arneiro, uma vez que o linho se dava bem em terrenos frescos, e os nossos eram muito frescos devido as nossas ribeiras.

  • A cultura do linho

    Alguns agricultores do Arneiro semeavam o linho em canteiros e depois mudavam-no para outras terras tal como acontece com o arroz. O linho depois de apanhado era posto dentro dos rios ou ribeiros, para depois ser bem batido, fiado e canelado para ser tecido nos teares de onde depois se faziam lençóis, camisas, toalhas, etc.. Noutros tempos viam-se muito, toalhas de linho nas Igrejas. Não há notícia de haver teares de tecelagem no Arneiro das Milhariças.

  • Fiação de lã no arneiro

     Atendendo ao pouco desenvolvimento, os povos tinham de criar artesanatos para se vestirem. Neste campo algumas pessoas do Arneiro têm fusos artesanais para fiarem as suas lãs. Após a lã fiada faziam as suas camisolas e os canos para as pernas de uso nos campos, sobretudo nos meses de inverno. Estes canos não cobriam os pés para estes andarem mais a vontade quer descalços, quer calçados. Muito embora os artesãos fossem do lugar dos Santos da freguesia de Tremês, o certo é que os fornos estão implantados na freguesia do Arneiro das Milhariças.Estavam implantados nesta freguesia os fornos de Francisco Carvalho desde 1880 no sítio do Paul, as talhas tiveram continuidade com seus filhos, Filipe Carvalho e João Carvalho. Manuel Carvalho laborou também com fornos de talhas desde 1880, no sítio do Estrambulhal. João Carvalho nasceu em 1888 nos Santos e faleceu em 1975. Laborou com um forno no sitio do Carril "Arneiro das Milhariças". Diamantino Carvalho trabalhou também neste forno do Carril.

    Um forno de talhas era construído mais ou menos como se constrói um forno de tijolo e de telha- norma geral levava 7 tarefas dos lagares de azeite e mais 60 ou 70 talhas, talhas grandes e pequenas. Uma fornada para ficar bem cozida levava cerca de 30 a 34 horas com lenhas de pinho, saruga e mato. Uma tarefa de um lagar de azeite levava uma semana a fazer por um homem. Uma talha levava de dois a quatro dias a fazer, conforme os seus tamanhos, porque este trabalho não podia ser logo seguido para que o barro secasse.

    Uma tarefa era vendida conforme os tamanhos entre 200$00 a 300$00. Uma talha era vendida por 20$00 a 25$00 por Almude. Em 1945 as tarefas foram vendidas a 200$00 cada. As talhas fizeram-se até ao ano de 1960. O artesão senhor Herminio Claro Carvalho foi o último a fazer talhas, atendendo a que as mesmas passaram de moda, devido ao aparecimento dos plásticos, e outros depósitos. As talhas eram vendidas para muitas partes do país, como para Arneiro das Milhariças, Espinheiro, Abrã, Alcanede, Serra de Santo António, S.Bento, Tremêz, Alcobaça, Amiais de Baixo, Bairro D. Constância, Rio Maior, Aljubarrota, Correias, Benedita, Turquel etc.

    As tarefas eram feitas especialmente para os lagares do azeite, recipiente muito indicado para receber o azeite e a água russa. As talhas na época tinham várias aplicações para despejos, como para por azeite, azeitonas, bagaço, cereais, cal para caiações, em casa muitas pessoas punham a água para beber etc.

    Os barros para as talhas existiam na área da freguesia e normalmente havia junto dos fornos- no Paul, Carril e Estrambulhal. O barro para ser bom deve ser moleirinho, um pouco fraco e ter goma. Os transportes eram feitos para as lenhas e talhas com carros de bois e carroças. A época dos trabalhos de laboração de fazer talhas e tarefas, decorria normalmente entre os meses de Junho a Outubro de cada ano.

    Filipe Fernando Carvalho também artesão de talhas, nasceu em 3-11-1920 nos Santos, que fez talhas até 1950. Era filho de João Carvalho (Moço) e de Maria do Rosário (Temuda) diz que seu bisavô Francisco Carvalho foi o primeiro a fazer talhas e tarefas em barro era natural do Arneiro das Milhariças onde nasceu em 1880 casando depois em Santos onde construiu família e falecendo em 1935.

  • Festa em honra de S.Sebastião

  • A comissão de festas

    Tradicionalmente as comissões das festas em honra ao mártir de S. Sebastião, organizavam-se nos dias dos festejos e eram compostos por um Juiz, um Escrivão, uma Escrivã e dois mordomos. A entrega da bandeira revestia-se dentro de certa solenidade em casa do Juiz dos festejos que iam entrar.

  • A entrega da bandeira

    O Juiz dos festejos terminavam a proferia com as seguintes palavras: "Senhor Juiz tenho a honra de pôr nas vossas mãos a bandeira da nossa terra amada e faço votos ardentes para que os seus festejos do ano próximo sejam ainda mais rijos e mais prósperos do que os do presente ano. A resposta do novo Juiz é a seguinte: "aceito de bom grado a bandeira da nossa terra amada e juro-vos que prometo interessar-me pela festa com todo o entusiasmo da minha alma”.

  • Os jogos tradicionais

    Os festejos noutros tempos, tinham grandes atracões com cavalhadas com cavalos, mulas e até com burros. Estes jogos tradicionais faziam-se no largo principal do Arneiro junto à Igreja e em toda a Manga do Largo, até à comeira. Estes jogos tinham muitos concorrentes e eram feitos com grande entusiasmo e muito divertidos. Tem vindo a fazer-se os festejos em 13 de Junho em honra ao Santo Antonio, no largo principal dos Casais da Milhariça. Os festejos constam normalmente de Arraial com música ou conjuntos musicais. Certo ano fez-se uma procissão pelas ruas dos casais, que decorreu com muito respeito.

    Jogo das cavalhadas

    No Arneiro das Milhariças tal como em outras aldeias ribatejanas por altura dos festejos do Mártir S. Sebastião no dia 20 de Janeiro. No final dos festejos jogava-se muito o jogo das cavalhadas, no largo fronteiriço da Igreja e na rua em frente, norma geral a corda das cavalhadas era posta nas oliveiras junto a antiga escola primária hoje parque infantil da Junta de Freguesia do Arneiro das Milhariças. Este jogo consistia em se atravessar na grande rua uma corda com argolas onde se punham bilhas com água, urina, gatos, coelhos, etc. Os jogadores jogavam as cavalhadas a cavalo nos cavalos a uma determinada distância imposta pela organização, e levavam na mão um pau ou uma verdasca, para em corrida atirarem ás bilhas e ás argolas. Por vezes quebravam-se as bilhas e havia grandes gargalhadas da assistência que rodeava o jogo, em virtude dos jogadores apanharem com a água, urina e saírem os gatos e os coelhos das bilhas.

    Nas recolhas sabe-se que se jogavam as cavalhadas no Arneiro até ao ano de 1933. Recordamos alguns jogadores da época, Manuel Louro Casével, José Leite do Arneiro das Milhariças, Sr. Tomaz de Tremes, entre outros.

  • Usos

    Noivo- José Luiz Petulante. Natural do Arneiro das Milhariças.

    Noiva- Ermelinda da Purificação Ramalheira. Nasceu em 20-11-1898. Natural de Espinheiro, filha de José Ramalheira e de Maria da Purificação. Casaram na Igreja do Arneiro das Milhariças em 29 de Setembro de 1924. Foi celebrante o Padre José Pereira Santos.

    Trajo do Noivo- O tecido geral do fato era de fazenda com calça á boca-de-sino e casaco normal. Camisa branca, gravata, chapéu preto normal e sapatos pretos.

    Trajo da Noiva- O tecido geral do fato era de fantasia de cor de grão, tecido muito usado na época. O vestido era comprido até aos pés - a blusa lisa de abetuar ao lado, á frente tinha uma flor do mesmo tecido. A saia era comprida do mesmo tecido sem pregas. Levava um laço de lado do mesmo tecido. Levou véu do mesmo tecido do fato.

    A festa do Casamento- Noutros tempos a festa dos casamentos, os preparativos duravam oito dias, havia as cozeduras do pão, bolos, fritos, da matanga dos gados quase sempre o carneiro e a cabra.

    As Refeições- Os pratos deste casamento, foram confecionados segundo a época e o tradicionalismo. Houve sopa de massa e de canja. Houve cozido a portuguesa com grão, muito usado no Arneiro das Milhariças. No almoço foi servido sopas de fessura e galinha, nas sobremesas houve vinho, azeitonas, bolos de noiva, e arroz doce. A festa durou quatro dias, não faltando os grandes bailaricos. No Arneiro das Milhariças o açafate ia à mesa o que sucedeu neste casamento. Os convidados davam 5 mil reis e 25 tostões eram as ofertas da época.

    Os bailaricos- Abrilhantou os festejos o conterrâneo, acordeonista Antonio Vezes, a festa durou quatro dias. Dançou-se o bailarico, Verde Gaio, o Fandango, Moda a dois passos, Passe e cate, Moda da contradança. Segundo a tia Ermelinda Ramalheira nos afirmou, Maria José Rodrigues do Arneiro das Milhariças dançava o Fandango com a garrafa em cima da cabeça. Noivo- Manuel Nunes (CHINE). Natural do Arneiro das Milhariças.

    Noiva- Maria dos Anjos Marques. Nasceu no Arneiro das Milhariças em 25 de Janeiro de 1896.

    O casamento realizou-se na igreja em 1917 e foi celebrante o Padre José Pereira Santos, Pároco na igreja do Arneiro das Milhariças.

    O Noivo Trajou- Com calça, colete e casaco simples em fazenda preta, camisa em paninho branco com gola e levava chapéu preto.

    Noiva- O tecido geral do traje foi de fazenda verde-claro, com casaco com um sobreposto em jeito de babete. Saia lisa ate aos pés, levou mantilha preta, de costume nestas cerimónias.

    Refeições do casamento- Fez-se couve com feijão branco, no outro dia refugava-se o mesmo, pondo-se umas fatias de pão de milho com azeite.

    Bailarico do casamento- O bailarico deste casamento foi feito com um grupo de raparigas a dançarem e a cantarem nos bailaricos, a moda das carreirinhas, o fandango, as valsas de roda, a parodia, o fado, o reinadio e o verde gaio, foram as modas que cantaram e dançaram neste casamento.

    Usos do arneiro após os casamentos- Após os casamentos era de tradição no Arneiro das Milhariças os padrinhos irem visitar os noivos passados oito dias do casamento. A Sra Maria Anjos Marques foi visitar os seus afilhados Lorenço Porto de Igreja que casou em 1916. Levou no cesto o seguinte: Trigo, Milho, grão, Feijão, 10 litros de azeite e vinho.

  • Serramento da velha

    O serramento da velha foi também uma lengalenga usada pela mocidade do Arneiro das Milhariças, desde á muitos anos, era uma brincadeira muito em uso no nosso Ribatejo, atendendo a que noutros tempos as aldeias não tinham como hoje outros divertimentos, como futebol, a rádio, a televisão e outras diversões de hoje.

    O último serramento deu-se em 1961 e tomaram parte nesta tradicional rusga do serramento da velha, os conterrâneos; Joaquim Jorge Lampeão, Manuel Francisco da Ribeira, Fernando Martins, Luiz do Armazém, Manuel Botas (Garrete). Como era de tradição rapazes solteiros e outros casados, no dia do serramento da velha que coincidia a uma terça-feira nos meados da Quaresma, neste ano de 1961 o último que se fez no Arneiro das Milhariças e de que há noticia exacta. Este grupo juntou-se antes de começar o serramento dentro de grande amizade seguindo pela calada da noite, munidos de guizos, chocalhos e um cortiço.

    Os serramentos

    Os serramentos iniciaram-se nos dois irmãos, muito conhecidos na freguesia que foram Silvestre e António " Cuícas" dois solteirões da aldeia do Arneiro das Milhariças, de certo modo dois agricultores abastados.

    Serrar as velhas

    Norma geral o grupo que serrava as velhas, chamavam as pessoas que já estavam a dormir- e mentiam-lhes com notícias más que seu filho está doente ou seu pai. Neste dia disseram ao Silvestre e ao António ( Cuícas) que as suas vacas andavam á solta- estes levantaram-se logo e então o grupo da rusga disse em voz alta "Serrão Velho" vai para o cortiço- os velhos apareceram- e então os rapazes do grupo tocaram todos os guizos e chocalhos fazendo grande barulho como era de costume e tradicional.

    Estes velhos ficaram assim serrados. Por vezes havia velhos que não recebiam bem o serramento das velhas e então mandavam para os componentes da rusga penicos de urina ou água como protesto.

    Os rapazes normalmente fugiam e seguiam para outros velhos. Por vezes havia velhos mais compreendidos e levavam a rapaziada para as adegas, dando-lhes chouriço, pão e vinho e azeitonas, e a tradição continuava.

    Dados de Joaquim Jorge Lampeão-26-01-1993

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